Multiplicador de sonhos

O que você pensa ser ou fazer aos dezoito anos? Namorar, trabalhar, entrar na faculdade, terminar o ensino médio, ter um carro ou uma moto, eu também pensava nisso, mais sempre cresci ouvindo que para ser alguém na vida era preciso estudar e sempre gostei de aprender, não para ser apenas alguém, mais para saber algo a mais. Desde novo sempre gostei de ajudar os outros, aprendi a ler apenas aos dez anos, reprovei duas vezes na primeira série e foi com uma professora anjo que no dia em que li a primeira frase me abraçou na frente da turma toda e me deu assas para o mundo. Por de trás desse anjo havia outro, minha mãe, que nunca desistiu de seu pássaro. Aos onze comecei a escrever pequenas poesias, dizem conhecidos que aos quatorze e quinze escrevi discursos políticos para um candidato a vereador de minha comunidade, fato não lembrado, porém o amigo em parte comenta sempre.

No período de doze a treze anos, tive uma forte anemia, cheguei a tirar a coluna do lugar. Lembro como se fosse hoje minha avó colocando uma vara de cana de açúcar embaixo do colchão de minha cama. Voltei a ser um adolescente normal. Aos dezesseis fui ser catequista. Por oito anos, aprendi e conheci pessoas admiráveis. Tinha começado o que poderia chamar de meu primeiro emprego, seria de garçom. Fiz amizade com as cozinheiras, mais não agradei ao meu supervisor e na verdade não era um bom garçom, mais sabia ouvir as pessoas mais simples desde cedo.

Tinha dezessete anos nessa época, alguns dias depois iniciei um tratamento contra uma forte amidalite, tomei 22 benzetacil. Conclui a oitava série.  Chego aos dezoito. Lembro dessa cena nitidamente. Nos primeiros dias de aula no primeiro ano, dentro do ônibus não consegui ler à hora no relógio da matriz, e confundi duas irmãs uma com a outra. Não sabia que ali começa uma outra história. Ela começou na verdade resultado de um erro médico alguns messes antes. Hoje este médico já é falecido, depois falarei mais sobre ele. Fui encaminhado a um oftalmologista, algo normal, pois desde criança visitei regularmente esse tipo de médico, pois sou cego de nascença do olho direito e o esquerdo estava fechando devido a um problema. O resultado dos exames não foram animadores.

Fui detectado ser portador de uma doença chamada toxoplasmose, fiz o tratamento, faltei messes a aula, engordei devido à medicação que provoca retenção de líquido, de 78 quilos para 90,  passando semanas isolado do mundo dentro de um quarto delirando de febre. Até que um dia tudo volta ao normal novamente. Mas não sabia que a doença no meu caso reativava, ou seja, pelo resto da vida vai me acompanhar. Além de ser portador de toxoplasmose ocular, depois de seis reativações, a mesma provocou uma lesão no centro da visão, tive perda de acuidade visual de 72%, hoje me resta 28%. Sou considerado medicamente falando, cego de um olho e visão subnormal do outro, e com os resíduos da lesão, uma cicatriz central que pode tampar uma cabeça humana, muito útil em palestras e portador de uma doença incurável. É como se tivesse um câncer que sempre volta. 

Durante esse período de reativações tentei continuar a vida, tive muitas perdas. A primeira é marcante, sempre li na frente da igreja, salmos e tudo mais, pela terceira reativação não pude mais continuar. Nos estudos não foi diferente, no ano de 2000 fui estudar para ser professor, havia reprovado em uma matéria no primeiro ano do segundo grau e passado no segundo ano pois cursei os dois ao mesmo tempo e como não poderia cursar o terceiro, não queria ficar parado resolvi estudar magistério, tinha 20 anos. Durante a metade do curso tive a segunda pior reativação a que causou a lesão. Fiz o tratamento e consegui voltar, passei no primeiro ano. No segundo, surgiram dificuldades, não enxergar o quadro, ainda bem que tinha um amigo que me servia de olhos, mais já quase impossível de continuar.

Mais fui até o fim, passei no estagio e uma professora me perguntava o motivo de minha letra ser um pouco esquisita e outra me dizia que eu seria um ótimo publicitário e que deveria ler mais livros nas férias. No fim percebi por ter um grande amor a profissão e por entender a importância de um bom professor na vida de uma criança que a sala de aula seria para mim apenas uma lembrança. Nesse período devido aos estágios perdi o emprego de agente de saúde, mais havia começado uma paixão, o teatro. Nesse campo da escrita comecei a escrever para um jornal local de minha cidade. O ano de 2003 é um tipo de ano que se fosse possível você apagaria.

Pela primeira vez depois de anos, não era mais estudante. Teimoso ainda tentei cursar um supletivo. Escrevia para jornais, ajudei a fundar entidades associativas, associações comunitárias. Nesse ano outro fato marcante, como disse sempre escrevi poesias desde os onze anos, resolvi participar de um festival na cidade promovido pela prefeitura. Naquela tarde de outubro, resolvi ir, porém tive febre nos dias anteriores e não decorei o texto, ele falava da minha infância. Na frente de cerca de trezentos estudantes, fui ao palco no centro e um dos organizadores me passou o texto para fazer a leitura. O que parecia de certo ponto humilhante foi algo que me fortaleceu de certa maneira. Vi um dos jurados balançando a cabeça enquanto lia e quando desci do palco enquanto passava em direção ao meu lugar na platéia ouvi alguns estudantes que me chamaram de louco. Nesse dia minha mãe foi meu ombro.

Os anos seguintes aprendi a aceitar o modo de vida ao qual estava inserido nesse momento. Nas três primeiras reativações tive que me adaptar a cada situação de uma forma diferente. Era um mundo sempre novo nascendo e era preciso aprender a viver nele. Foi quando percebi que adoecer o corpo pode a mente não e o coração nunca pode carregar pedras no seu lugar. Continuei no teatro, nas entidades, escrevendo para os jornais da cidade, fui duas vezes pré-candidato a vereador, voltei de certa forma a vida. Algumas coisas tive que aprender a deixar para trás, nem tudo é possível. Nunca poderei dirigir e posso enxergar o brilho das coisas à distância de cinco metros não o que existe lá. Não me pergunte como atravesso o asfalto para voltar para casa, é algo que sempre me pergunto também. Descobri perdas e ganhos, desilusões e outros caminhos para aprender. No anos de 2004 comecei a publicar meus textos poéticos, reconhecidos nos estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, diplomas, e assim nascia o poeta, e hoje sou conhecido como escritor. De louco me tornei escritor como sempre quis ser desde cedo.  Também reconhecido atualmente como jornalista, gosto de me intitular um articulista cidadão que escreveu durante nove anos interruptos cerca de 80 artigos para os jornais da cidade.

Participei de muitas apresentações teatrais, tive o meu dia de grande ator, onde todos brindaram por minha atuação. Tanto a questão do erro médico, como a da leitura do texto em público serão logo desvendados. Antes preciso contar o momento mais crucial dessa história, para alguns poderia ser o final dela, para mim é o começo de alguma forma. No inicio de 2009 fui convidado a trabalhar como assessor na prefeitura, na imprensa. Fiquei por lá durante umas três semanas, não pude continuar devido à visão. Logo depois de minha saída uns dias depois, o meu melhor amigo, a pessoa que mais gostava nessa vida e que era capaz de me fazer rir do nada, meu pai havia tido um AVC – Acidente Vascular Cerebral.

Quando meu pai caiu eu cai, assim nasceu minha sexta reativação. Durante os quarenta e oito dias que passou no hospital, o último mês fiquei em tratamento médico sozinho pois minha mãe estava cuidando de seu grande amor. Pude ficar dois dias com ele no hospital, devido ao organismo debilitado poderia contrair alguma infecção.   Durante esse período tinhas minhas obrigações com as entidades a qual participava tanto a associação quanto a entidade de escritores recém criada. Meu pai superou um coma vegetativo, 22 dias em silêncio, e voltou aos poucos, nas últimas duas semanas seus olhos brilhavam como nunca brilharam.

Na semana que viria para casa meu pai faleceu. E algumas pessoas dizeram logo depois do velório que éramos duros pelo motivo de não termos chorado em cima do caixão. Estávamos nele naquele dia, mortos. O meu gesto, o último de amor ao meu pai, foi passar minhas mãos trêmulas em seu rosto, pelo motivo de meu tratamento estar no final e sair de um tratamento onde o remédio penetra seu cérebro é pior de quando se entra nele, meu estado de silêncio, era por não ter voz e nem fôlego dentro de mim. A pessoa mais corajosa dessa história é minha mãe, sua história de amor. Nunca vou saber a profundidade de sua dor ao ver seu pedaço partir naquela manhã. Os meus dois anjos separados pela morte. Mas um amor eterno e lindo como o do maior romance. Eu vi o amor em todas as suas fases e uma médica dizia que estava em processo de cegueira e que não passaria de 2004.

Há dois anos não sofro uma reativação. Qual é a minha força, esperança. É acreditar de paixão naquilo que sou capaz de fazer. No mesmo local onde um dia fui chamado de louco, depois de ler um texto sobre minha infância, este ano fui jurado no mesmo festival lá atrás e um de meus poemas ganhou o primeiro lugar. Muitas vezes fui jurando antes dessa, mais de certa forma, essa foi à melhor vez. E neste ano, 2011, no encerramento da oficina de teatro, oficina que aconteceu durante alguns messes em uma casa, a mesma casa do médico que não diagnosticou minha doença há quatorze anos atrás, no meio do filme que assistia, eu perdoei ele do fundo do meu coração e nunca me senti tão leve na vida. Entendi que todos tem os seus motivos de serem duros na vida, esse homem havia perdido um filho de dezoito anos esmagado no portão da sua residência, ele não merecia o meu rancor e deve descansar em paz.

Conto minha história para você que não acredita em milagres. Conto minha história para dizer que cada um de nós é uma forma de vida, diferente e única. Ainda sou apenas uma vírgula de minha própria história e em vez de me julgarem aprendam comigo a perdoar, a vencer os seus medos. Sejam parte da minha vida e me abracem antes de jogarem pedras, pois se continuo a viver e a ser um multiplicador de sonhos, é por amar a cada pessoa que conheço em minha jornada. Um dia irei ficar completamente cego e não sei onde minha doença vai atacar. A única coisa que sei é que nunca poderão dizer que tive medo de sonhar e sempre enxerguei a alma das pessoas antes da aparência. Mais nunca me perguntem como atravesso o asfalto!

 Sobre o autor:

Escritor e poeta/Relações Públicas da Amvi Associação e Seg – Sociedade Escritores de Gaspar/Presidente da Fameg – Federação das Associações de Moradores de Gaspar/Membro da frente em defesa da cultura catarinense e articulista cidadão, assessora  entidades e participa dos conselhos municipais de Desenvolvimento Urbano e de Juventude e é ator.

2 thoughts on “Multiplicador de sonhos

  1. Edson Simon disse:

    Caro Anisio, não há história melhor e mais sincera a ser contada do que a nossa própria. A sua história é um exemplo de superação e persistência. Continue multiplicando seus sonhos, pois eu te aplaudirei de pé.

  2. tania disse:

    Oi Anisio,
    Confesso que me tocou profundamente sua história, mas você é um vencedor. Parabéns e que você continue sempre superando as dificuldades.

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