A culpa não é das estrelas

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Os messes finais de vida de uma pessoa podem ser tristes ou felizes.  No fim da linha, onde o trem parte em uma viagem sem retorno, podemos encontrar ensinamentos, e são estes que ficam. Tive três histórias marcantes nos últimos anos. Perdas de pessoas que de alguma forma me deixaram legados. Seu Ernesto, conheci através da escrita. Lia meus artigos em jornais. Se tornamos grandes amigos. Foi alguém que me ensinou em suas falas calmas, e sempre recebia a todos com um “como vai meu irmão”. Ainda o ouço falar isso as vezes! De todos os diálogos que tivemos, o último, uma semana antes de sua morte já internado no hospital foi o mas profundo de todos. Não trocamos nenhuma palavra, da forma humana, mas espiritualmente conversamos.

Aquela situação me parecia uma reprise de um filme. A mesma doença que vitimou meu pai dois anos antes, o levaria embora aos 75 anos de idade. Meu pai, meu grande amigo, o homem que me carregou no colo, me fez rir tantas vezes, e curou minhas feridas como se fossem suas. Lutou 48 dias, saiu de um coma vegetativo, superou um AVC (acidente vascular cerebral) que o derrubou. No dia de voltar para casa, ele se foi. Aprendi o amor e sua profundeza, através dele e de minha mãe. E ela foi tão corajosa, e ainda é, e eu sinto orgulho dela a cada dia, por ver sua força. Meu pai descansou, me deixou seus sonhos e sua alegria. Nunca nos deixou. Por isso não choramos na sua despedida, o que espantou a alguns, mas o aceitamos na sua nova forma de vida: dentro de nossos corações. A terceira história, é de uma senhora, que conheci em um momento de sua vida, inusitado. Um diagnóstico de câncer terminal.

Durante cinco messes, conversamos muito pela internet, em torno de seu sonho, de ter um livro publicado de poesias. Trocamos confidências únicas e somente nossas, coisas de poeta como eu dizia a ela. Nos conhecemos e por duas vezes a acompanhei durante sua luta, na quimioterapia. Riamos durante aquelas manhãs, quartas-feiras únicas. Eu ficava sério quando a enfermeira lhe dava injeções, e ela ria. Tinha um sorriso lindo! De alguém que aprendeu  sua vida, a dar o seu melhor. Falava com tanto amor de seus filhos, de seus netos e noras. De seus sonhos, e me dava chocolate amargo, pois dizia ser o melhor deles. Um dia ela me disse que independente de ver seu livro, nossa amizade foi mais importante. E eu sabia que tinha uma amiga especial, que logo partiria.

Um dia ela me pediu para lhe escrever um poema. Foi escrito e ele dizia que um anjo iria falar em seu ouvido no momento de partir e lhe dizer para seguir em frente. Duas semanas antes ela me avisou, que sua hora estava chegando. Numa sexta-feira de maio, foi internada. Com a ajuda da família pude entrar no quarto. Vi tanto amor naqueles filhos por sua mãe, uma cena que nunca vou esquecer. Mesmo naquele momento de desprendimento, ela estava forte, e dava força a cada um naquele lugar. Ao me despedir me aproximei de seu ouvido, e lhe disse ama parte do poema que ela escreveu uns dias antes de ser hospitalizada, ” ande bem devagar para não acordar a paz”, e que nunca em toda minha vida eu conheci uma poetisa tão brilhante quanto ela. E ela foi, em tudo que vez em sua vida, e nos seus escritos poéticos, que narram dor e alegria, é que vive um pouco dela. Naquela madrugada a poetiza partia, e terminava sua luta de doze anos contra a doença.

O que essas três histórias tem em comum? Esse é o significado delas. Todas elas, são partes de um grande quebra-cabeça. Cada uma, foi capaz de me dar, sem me pedir nada em troca, coisas valiosas. A amizade foi uma delas. Hoje em dia se fala muito em religião, em ter coisas. Mas se esquecemos do importante, dos gestos. Eles são mais valiosos do que qualquer coisa. Se não tivermos a disponibilidade de viver, o agora, sem complicar com coisas que interessam pessoalmente a vida de cada um, nunca teremos conhecido ninguém de verdade. Se entregar, hoje em dia é um artigo de luxo. Tudo parece tão rápido e é realmente, estudos, trabalho, amigos, amores, status…

Corremos um longo tempo de nossas vidas atrás dessas coisas. Isso não é errado. Deixar de  viver, seria. Retire das pessoas que passam na sua vida, seja breve ou longa a passagem, ensinamentos. Elas não vão lhe dar coisas matérias. Muitas vezes será, “como vai meu irmão” como falava seu Ernesto, outras um “eu te amo”, meu pai falava sempre que me amava, e outras vezes chocolate amargo como Erenesia. E sabe, eu não trocaria isso por nada, por nenhum tesouro do mundo! Não apague-se as coisas que conquista. Viva pelas coisas que recebe dos outros, o amor, os risos, os abraços, e nunca espere nada em troca pelo bem que você faz, e pense no poder dos seus gestos. Eles valem mais do que mil palavras, sim!

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2 comentários sobre “A culpa não é das estrelas”

  1. UM TEXTO DE MUITA EMOÇÃO.
    SABER DO LEGADO QUE ESTAS PESSOAS DEIXARAM PARA TI,É BOM DEMAIS.
    QUE BOM QUE PARTILHASESTA VIVENCIA.
    ABRAÇOS

  2. boa noite amigo…. É lindo demais faz voltar a nossa linda poeta, E a saudade bate forte… Pensar q muitas vezes demoramos para ver o q é lindo em nossa volta. É assim como a tia.. Depois a saudade..

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