Os cafés das quintas

Silvio

“Já esta na minha hora sou escravo do relógio”, dizia seu Silvio. Nesse momento se despedíamos de mais um café. Algumas vezes estendíamos a conversa até o destino dele onde apresentava um programa de rádio. Enquanto os jovens enlouquecidos fugiam da escola, andávamos devagar pela rua. Durante dez anos foi assim. Toda quinta-feira tínhamos durante a tarde esse encontro, no qual algumas vezes se não me engano falhamos. Nossa amizade começou por intermédio de seu irmão Ernesto. Nossas conversas eram sobre política, religião, temas atuais. Os dois em particular gostavam muito de meus artigos em jornais locais, eram pessoas cultas e articuladas. A algum tempo já não os escrevo, não por falta de assunto, não sei explicar os motivos. Talvez acabou a tinta na caneta como me falava seu Silvio, quando não via o artigo no jornal.

Para mim era como ter um avô,  alguém que eu realmente gostava de estar, nunca foi uma obrigação ou algo de agenda. O professor era ele, eu era o aluno. Seu legado e seu carinho especial era pelo hospital da cidade, do qual foi por muitos anos diretor. Nele e em suas histórias pude conhecer uma cidade antiga, sempre relacionado com os tempos de agora. E foi assim durante muito tempo. Esse tempo, que uma hora nos tira tudo, mas nós deixa lembranças, como fogo queimando ao longe.

Um dia fui levado por ele em seu fusca ano 69, sentado no banco de trás. Já tinha seu Silvio, uns 88 anos se não me engano. O banco do passageiro não existia para dar mais espaço às verduras que trazia de casa. Dizia não sentir raiva de quem por ventura falava dele, isso relacionado aos tempos de diretor do hospital. Essa talvez seja a receita da felicidade, não sentir raiva.

Não tivemos tempo de conversar sobre às biografias de Getúlio Vargas, da qual me emprestou para ler. E nem do livro de Mujica ao qual demos de presente, eu e mais dois amigos pela passagem de seu aniversário. Foi seu último anivérsário. Ficamos conversando em sua casa numa sexta-feira, parecia tudo como antes. Parece que ouço sua esposa dizer, o que esses dois conversam tanto! Mas o relógio só anda.

Aos 92 dois seu Silvio Schramm faleceu. Ao me aproximar de seu caixão, bati de leve em suas mãos, três toques, foi a maneira que encontrei de me despedir. Ele dizia a família e amigos que não queria que lhe colocassem flores no túmulo, mas que gastassem esse dinheiro com quem precisasse. Alguns dias depois de seu enterro, meu tio encontrou em destroços de um velho prédio derrubado no centro da cidade, alguns jornais antigos datados de 1954. Foi muito emocionante quando em uma das páginas li o seu nome, era como se tivéssemos conversado sobre aquilo de alguma maneira, como iriamos certamente fazer.

O que vale a pena na vida são os momentos. Essa grande desordem que se encontra o mundo, é por isso. Estamos perdendo a capacidade de ouvir, de gostar de gente. Estamos preferindo ficar mais com máquinas e suas inumeras funções do que compartilhar o tempo precioso das pessoas. Não vamos tirar das telas de cinemas, das novelas, dos livros, de qualquer outra forma de inteiração, a bondade e carinho que somente outro alguém pode nos dar. Mas isso precisa ultrapassar palavras e se tornar gestos. Éramos amigos e pena que já não existiram mais quintas-feiras!

O relógio venceu, a caneta acabou a tinta e ainda por muito tempo sentirei falta de você! Toque, toque, toque!

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